Encontro religioso em Maricá foi marcado por discursos ecumênicos

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Campanha "Quem é de axé diz que é" reforça conduta contra preconceito

O espírito ecumênico e o combate à intolerância de qualquer natureza dominaram a pauta do encontro de religiosos realizado na sexta-feira, 15 de outubro, na casa de eventos Palladon, no Flamengo, em Maricá. Promovido pelo Instituto Cultural Afro-Brasileiro e Desenvolvimento Social (Afrobras), Centro de Desenvolvimento da Cultura e Cidadania (Cedec) e pelo Sindsprev-RJ, com apoio da Prefeitura de Maricá, da Fonte para Orientação Religiosa de Matriz Africana (FORMA) e do jornal Vozes do Axé, o seminário marcou, pela voz da religiosa Deusimar de Olissá, o lançamento, no município, da campanha “Quem é de axé diz que é”, para conclamar os adeptos das religiões de raiz africana a declarar a sua fé ao Censo 2010.

A campanha, liderada pelo Coletivo de Entidades Negras (Cen), serve ao mesmo tempo de chamamento à legalização dos terreiros, barracões e centros, um modo de dar maior dimensão à presença dessas religiões na vida brasileira, incentivando a implantação de políticas públicas específicas e garantindo a aplicação dos direitos já estabelecidos em lei.

“Embora o estado seja laico”, disse o secretário de Direitos Humanos e Cidadania, Marcos de Dios Coelho, na abertura do evento, “não deve ser omisso no combate à intolerância, que empobrece nosso desenvolvimento. O papel da secretaria é estimular o aumento da participação, é atuar no sentido do ecumenismo. Por isso estamos aqui com grande alegria, num momento em que consideramos ser necessário que a sociedade reaja a esse fundamentalismo hipócrita que grassa em toda parte”. E acrescentou, contundente: “Não importa partido, orientação religiosa ou sexual. É preciso repudiar a perseguição. Democracia supõe diversidade dentro da igualdade.”

Também se pronunciaram em favor da plena liberdade de culto e do congraçamento religioso a subsecretária de Políticas da Diversidade Religiosa, Mônica Fialho, o subsecretário de Políticas da Igualdade Racial, Togo Ioruba, o líder religioso e um dos organizadores do seminário Ademir Silva, assim como todos os palestrantes. Mas esse tema apenas serviu de eixo para a discussão de muitos assuntos ligados à fé, aos rituais, à tradição, à história, à filosofia e a problemas enfrentados pelos praticantes do candomblé, da umbanda, do kardecismo e de outras denominações de matriz africana e de cunho espiritualista.

Saberes – A médica Ina Meireles, do Hospital Pedro Ernesto, classifica como uma “troca de saberes” a relação entre a medicina oficial e os conhecimentos sobre saúde herdados da tradição africana. Ao mesmo tempo, denuncia o que considera “uma violência contra as origens”, pois “os povos africanos não nasceram pobres”. Foram “explorados e roubados, com o seqüestro de seres e suas culturas, de lugares e povos diferentes”, explicou, desenhando o contexto histórico em que se deu o tráfico de escravos. Na palestra, ela apresentou os resultados do estudo que efetuou como tema do seu curso de mestrado sobre a presença da AIDS entre os adeptos do candomblé.

Quanto ao ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas de ensino fundamental e médio, a professora Helena Theodoro Lopes defendeu a sua obrigatoriedade com o argumento de que tal história e tal cultura fazem parte inseparável da nossa identidade brasileira.

“Elas nos imprimem uma maneira de agir e pensar”, define, antes de fazer longa e detalhada explanação a respeito da influência africana na formação do brasileiro. A propósito, o seminário de Maricá ocorreu dois dias após o lançamento, em Brasília, pelo Ministério da Educação (MEC) e a Secretaria de Políticas de Promoção para a Igualdade Racial (Seppir), do Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Ensino da Cultura e História Afro-Brasileira e Africana.

Ainda em relação ao preconceito, a advogada Márcia Meireles, de Volta Redonda, declarou em sua intervenção seu “repúdio à intolerância, qualquer que seja ela”, fazendo coro com as outras manifestações do encontro. Durante sua palestra, Márcia conclamou os responsáveis pelos terreiros, barracões e centros a legalizarem suas casas, pondo-se à disposição para prestar auxílio jurídico para essa finalidade. A mesma posição adotou o seu colega José Ricardo Lessa, assessor jurídico do Sindsprev-RJ, que falou sobre questões previdenciárias de interesse dos trabalhadores em geral e, de modo específico, do chamado povo de santo.

 
Ao fim do encontro, que teve roda de capoeira, maculelê, poesia, canto, teatro e manifestações de religiosidade, acabou vingando uma proposta com a finalidade de encontrar formas de fortalecer a posição dos adeptos das religiões de raiz africana e de realizar um novo encontro com esse fim. “É percetível”, declara a carta de lançamento da campanha do Cen, “que o temor da discriminação, a vergonha por praticar uma religião” por muitos tachada de primitiva ou prática de “negros ignorantes”, entre outros motivos, sejam responsáveis pelo fato de que, denuncia o documento, “milhares de pessoas não assumam sua religiosidade em público, não se orgulhem de sua prática de fé”.