Teatro do Oprimido ajuda a resgatar histórias de vida em Maricá

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O aluno Aluízio, de 18 anos, em ação na cena "O Casamento", retrata a violência doméstica contra mulher.

Recriar a realidade dentro de uma perspectiva teatral vem se mostrando uma importante ferramenta de solução de conflitos e de discussão de realidades. Dentro dessa perspectiva, a parceria da prefeitura de Maricá com o Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro (CTO) prossegue multiplicando os efeitos da técnica desenvolvida pelo teatrólogo Augusto Boal, com ótima receptividade. Encerrada na última sexta-feira (22/10), a oficina realizada com 18 alunos do Colégio Estadual Elisiário Matta foi marcada pela apresentação de dois esquetes, "O Casamento" e "A Verdade Nua e Crua", ambos desenvolvidos com a ajuda dos monitores Gabriela Lopes (da secretaria municipal de Educação) e Paulo Sérgio Gonçalves (secretaria municipal de Cultura).

Ambos receberam treinamento específico do centro teatral e, como parte desse desenvolvimento, passaram a criar projetos específicos em suas áreas de atuação nos quais as técnicas aprendidas criam ferramentas de integração com a comunidade. De acordo com Alessando Conceição, do CTO, as aulas incluíram exercícios, jogos e outras técnicas elaboradas por Boal. "A intenção é utilizar o teatro como forma de lidar com questões como preconceitos raciais, homofobia e violência contra a mulher. Considerei muito intenso todo trabalho produtivo desse grupo”, destacou o monitor.

Divididos em dois grupos, os alunos encenaram "O Casamento", voltada para a violência doméstica, e "A verdade Nua e Crua", voltada para a questão do bullying dentro das escolas. Cenário, figurino e falas foram propostos de acordo com os princípios do Teatro do Oprimido, que prevê diálogos mais livres e com participação coletiva, no chamado teatro-fórum. A técnica serviu para a elaboração de possíveis finais para os esquetes. “Queremos que as pessoas pensem em alternativas para o desenrolar daquela história. Isso incentiva a produção, interação e participação popular, além de democratizar a cultura”, destacou Paulo Sérgio. Já Gabriela Lopes destacou que a iniciativa permitiu conhecer formas de lidar com as diferenças. “Na sala de aula há pessoas sendo oprimidas e outras exercendo o papel de opressoras. Através das técnicas teatrais e de exercícios de interação corporal conseguimos melhorar o comportamento dos alunos e ajudá-los a enfrentar os diversos problemas familiares que trazem reflexos à rotina escolar”, disse.

Os alunos aprovaram a iniciativa. Aluízio José da Silva, de 18 anos, cursa o 4º ano do normal. Nunca fez teatro e considerou a oficina uma excelente oportunidade para conhecer a si próprio. “O curso nos mostrou que o teatro pode ser o espelho daquilo que vivemos. Gostei de ver nossos anseios, desejos e medos expressados de forma tão real. Isso faz com que eu e a plateia nos identifiquemos com os personagens”, comentou o aluno que desempenhou o papel de marido agressor na cena “O Casamento”. Já Ludimila Silva, de 18 anos, aluna do 4º ano do curso de Formação de Professores do colégio, já participou de cinco peças na escola e não conhecia o CTO. “Achei muito interessante principalmente por permitir o envolvimento da plateia no desenvolvimento de histórias com temas tão comuns que poderiam ocorrer com qualquer um de nós. Então nos perguntamos: como agiríamos se isso nos ocorresse nesse momento?”.

A oficina teatral no Colégio Estadual Elisiário Matta fez parte de uma série de atividades realizadas em homenagem ao aniversário do patrono, o professor Elisiário Augusto da Matta, nascido em Maricá, no dia 23 de outubro de 1835.

Desenrolamento do Teatro do Oprimido

Em fase de desenvolvimento de projetos específicos pelos grupos de servidores das secretarias municipais de Assistência Social, Cultura, Educação e Saúde, a oficina do Teatro do Oprimido se estenderá até dezembro, quando haverá uma apresentação de resultados. Antes, em novembro (dias 8 e 9), os mesmos participantes terão outros dois encontros como Centro de Teatro do Oprimido, que acompanhará o andamento das ações. Mais de 70 países, a maioria nações em desenvolvimento como Índia e Paquistão, desenvolvem ações com base no conceito do Teatro do Oprimido. Como dizia Augusto Boal, todos os seres humanos são atores, porque atuam, e espectadores, porque observam.